domingo, 15 de abril de 2012

Capítulo 9: A perseguição termina

Jah Biroba finalmente estava aliviado. Sua canção havia aplacado a fúria vegetal de Pau Ladinha. Mas isso agora podia ficar de lado, pois o senhor da floresta iria ajudar o grupo de aventureiros a atravessar a floresta em direção ao barco de Mur Ronusrim e seus amigos, na esperança de alcançar Eutoku Utérror ou pelo menos encontrar vestígios de sua fuga.

E o auxílio de Jah Biroba se mostrou valioso. O ent se locomovia pelo mato com destreza espantosa. Afinal de contas, ele era o lorde daquelas terras selvagens (e saia em debandada dessa mesma forma quando fugia de Pau Ladinha). No seu trajeto, ele conversava com os animais. Trespassava riachos e lagos com vigor. Fazia malabarismos com os cipós das grandes árvores, dignos do melhor artista circense (“essa manobra eu faço sem a rede de proteção”, gabava-se).

O ritmo do ent era tão intenso que não poderia ter sido acompanhado pelos aventureiros. Mas isso não se mostrou um grande obstáculo. A equipe se amontoou dentro de Borgan III, a canoa de Sinsalabim, que foi carregada nos braços de Jah Biroba. (Diga-se de passagem que a banda de sopro e cordas não estava mais com o grupo, pois eles tomaram outro caminho). Pode-se dizer que a viagem foi radical. Até demais. A sensação de estar dentro da jangada era a mesma de se estar na mais violenta montanha-russa. Vômitos não eram raros. Súplicas pela “mamãe” também não. Jah Biroba não ajudava, pois dava umas sacudidas na jangada só para se divertir.

Mas no final das contas, o resultado se mostrou positivo. Em questão de uma manhã e uma tarde, chegaram à praia onde Mur Ronusrim havia atracado o seu barco. Todos esperavam pelo pior. Mas acabaram se surpreendendo. A embarcação de Mur, o “Ginete do Mar”, estava ainda lá, ao lado dos destroços da nau queimada de Eutoku, o “Potreiro Oceânico IX”. Utérror não havia se apossado do vaso de seu rival. Mas por quê? A resposta era mais simples do que parecia.

O “Ginete do Mar” não era um barco muito grande, mas requeria um exímio marujo para movê-lo sozinho. Eutoku Utérror era um péssimo navegador. Seus mercenários é que haviam conduzido o “Potreiro Oceânico IX” até ali. Certa vez, quando o imediato gritou “Olha a Proa!!!”, Eutoku, pensando que o sujeito era meio caipira, respondeu “Sim! De milho!!”.

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Mas também não era nenhuma surpresa que Eutoku não sabia nada sobre os ofícios de um grumete. Sua vida sempre foi em terra firme, onde começou servindo no exército da cidade-estado de Talagassus. Sua função era a de batedor e, entre seus camaradas de trabalho, encontrava-se Mur Ronusrim.

Naquela época, Utérror se desiludiu completamente com suas funções militares. Quando se alistou, pensou que “batedor” era aquele que podia espancar os inimigos sem dó, piedade ou responsabilidade. Ficou perplexo quando vieram para cima dele com um papo de “reconhecimento”. A partir daí, sempre se mostrou indisciplinado e desgostoso com o trabalho. Mur Ronusrim era o contrário: tinha conhecimento exato do que deveria fazer e se dedicava às suas tarefas.

Tal antagonismo explodiu durante uma missão onde os dois deveriam fazer o reconhecimento das defesas do castelo de um tal Marquês Ticaipucha, que havia trocado de lado em um conflito entre cidades-estados da região. Na ocasião, os dois acabaram sendo capturados. Durante os interrogatórios, Ronusrim não contou nada, mesmo sendo ameaçado de ter seu bigode magicamente oxigenado. Utérror, por sua vez, encontrou ali uma oportunidade: mudou de lado, contou tudo e mais um pouco, e ainda conseguiu um emprego nas tropas do marquês, para assim exercer a sua visão do cargo de “batedor”. Mur Ronusrim foi jogado em um calabouço.

Algum tempo depois, com a derrota de seu lado no conflito e sendo procurado pelas autoridades de Talagassus, Eutoku Utérror se tornou um mercenário, atuando em prol das escórias endinheiradas da região. Mur, libertado com o fim das hostilidades, deixou de ser um soldado e se tornou um caçador de recompensas.

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O grupo se despediu rapidamente de Jah Biroba. O ent estava com pressa, pois Pau Ladinha não perdoaria mais atrasos. Tão logo as despedidas terminaram, todos foram averiguar o barco: estava intacto, sem nenhum sinal de atividade, fora a catinga deixada ali por um bando de micos que aparentemente promoveram festins dentro da nau.

A conclusão natural era que Eutoku ainda devia estava na ilha. Sinsalabim tinha uma teoria de que o fugitivo devia ser um baita nadador, mas ninguém deu atenção. Mur prontamente começou a rastrear pistas que indicassem a localização do seu rival. Estava difícil. Sinsala queria ajudar, mas apenas conseguia avacalhar com os rastros encontrados pelo meio-elfo.

Finalmente, depois de percorrer um grande pedaço da praia (Sinsalabim sempre atento, temendo encontrar farofeiros), e depois de se embrenhar brevemente na floresta, o grupo seguiu os vestígios até uma caverna encravada em uma grande montanha.

Sinsalabim, Mur, Difarola Ceso, Cerel H’lepis e Bri'o'Cu invadiram a escuridão da gruta. Após algum tempo, o caminho se dividiu em três. Decidiram se separar, Sinsalabim e Cerel indo pela direita, Mur e Difarola tomando a trilha da esquerda, Bri'o'Cu embrenhando-se pelo rumo central.

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Cerel e Sinsalaba caminhavam já há algum tempo, seu caminho sendo iluminado por uma mágica do feiticeiro halfling. De repente, chegaram ao final da trilha, e se depararam com um paredão de pedra.

- Pelo jeito o Eutóku não veio por aqui. – Falou Sinsalabim, fingindo uma cara de decepcionado, mas feliz por dentro por não ter que se envolver em uma peleia com o vilão.

- Sim, vamos voltar e... espere! – interpelou Cerel – Estou sentindo uma coisa!

- Pois é... lanchei a pouco uns risoles temperados com naquinhos de porco selvagem...

- É muito forte!

- Bem... comi uns natchos acebolados também...

- Uma presença indiscutivelmente mágica!

- O quê!? Então aquelas cebolas que o Jah Biroba me deu eram encantadas? Aquele sac... bem... é inegável que elas estavam estupendas...

- Sinsalabim... a presença mágica vem desse recinto aqui! Sem dúvida não são os seus risoles e natchos, porque quando percebi que a tua situação estava braba, usei o feitiço do climatizador aromático “odores da primavera” há poucos minutos... – Explicava Cerel, quando apontou repentinamente o dedo. – Alí! Naquele monte de pedras!

Havia uma pilha de rochas amontoada cuidadosamente no canto da gruta. Seria praticamente impossível notá-la sem a percepção arcana de Cerel H’Lepis, porque, além de o monte ter sido cuidadosamente arquitetado para chamar a menor atenção possível, o limo tomava conta das rochas, o que a camuflava ainda mais. Os dois companheiros afastaram os pedregulhos até que se depararam com um pedaço de pano. Era uma vela de navio. O objeto, tomado por lodo, mofo e sujeira, estava embrulhando duas caixas de madeira.

O halfling agarrou a que possuía formato cúbico. Lançou cuidadosamente um feitiço para abrir a trava. Dentro, encontrou mais um embrulho: era um mapa. Ele envolvia um artefato metálico em formato cilíndrico que tinha cerca de 20 centímetros de largura, ornado com complexos arabescos curvilíneos. No mapa, estava desenhada toda a costa leste do continente, com todas as ilhas cuidadosamente representadas. Um “X” estava gravado em um ponto bem no meio do oceano.

- O que você acha, Sinsalabim?

- Isso aí é de colorir? Ahn... tu pode me dar uma forcinha na minha trava aqui?

Com a ajuda de Cerel H’Lepis, Sinsalaba abriu o seu caixote, mais fino e mais largo que o outro. Dentro do recipiente, o estóico aventureiro encontrou uma capa cuidadosamente dobrada. Ela era de um azul-marinho extremamente intenso e escuro. Suas bordas apresentavam detalhes em ouro e prata. Sinsalabim, fascinado pelo achado, prontamente vestiu o item.

- Não seria melhor estudar um pouco os objetos para saber quais são seus propósitos, antes de sair usando eles sem qualquer cuidado? – perguntou H’Lepis.

- Hahaha. Você se preocupa de mais. O que poderia acontecer de errado? Só porque na última vez que usei um item mágico uma cabeça brotou da minha bunda? Está tudo dominado... curte só como fico garboso com o manto aqui!!

Os dois então começaram o caminho de volta.

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Bri'o'Cu estava precisando suar a camisa. Seu caminho era tortuoso, difícil. A cada minuto, precisava realizar grandes feitos acrobáticos para vencer obstáculos naturais como penhascos, caminhos estreitos e paredões de pedra. E, praticamente a cada barreira vencida, apareciam monstros das profundezas querendo almoçá-lo.

Finalmente, se deparou com um precipício enorme, instransponível. Não havia mais como avançar. O rakshasa, fulo da vida, não conseguia acreditar. Tudo aquilo para nada. Mas então uma faísca de alegria tomou conta dele. Ele notou que havia escritos e desenhos primitivos nas paredes de rocha ao lado da cratera profunda. “Conhecimento ancestral, sem sombra de dúvida”, falou para si mesmo.

O idioma era extremamente antigo. Bri'o'Cu só conseguiu decifrar as palavras porque conhecia um dialeto parecido, menos obscuro e menos ancião, uma variação daquele linguajar remoto. Após longos minutos de exercício mental ele leu:

“Esse é o fim da linha. Seu imbecil. Devia ter escolhido a porta número dois ou número três. Hahahahaha”.

Além disso, havia uma série de desenhos rústicos espalhados pelo “mural” de pedra. Esses sim deviam ser valiosos para qualquer estudioso de antropologia ou de arqueologia.

Mas isso pouco importava para Bri'o'Cu, que se encontrava em um estado de raiva insana. Ele, que estava coberto com as substâncias mais asquerosas e nojentas imagináveis, oriundas das criaturas que teve de derrotar para chegar ali, utilizou tais fluidos para pichar todos os desenhos. Delineou bigodes, carrancas, mudou o sentido das cenas ali representadas... ficou uns 15 minutos nessa empreitada.
Então, começou a jornada de volta, que certamente seria tão desgastante como a vinda.

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Na trilha da esquerda, Mur Ronusrim e Difarola Ceso estavam andando em estado de alerta, procurando serem os mais silenciosos possíveis. Porém todo o cuidado da dupla não foi o suficiente. Eutoku Utérror estava ali, e sabia que uma hora ou outra os seus inimigos iriam aparecer. Ele estava de tocaia em um canto obscuro da caverna.

Quando notou que Mur e Difarola estavam vindo, esperou o momento certo e pulou em cima deles rapidamente, feito um gato marrom com listras pretas que prefere comer ração à tarde e não ao alvorecer, dormindo assim boa parte da manhã e da noite. Conseguiu dominar Difarola e fazê-la de escudo humano, agarrando-a com o braço esquerdo e colocando uma adaga rente a seu pescoço. Mur percebeu com atraso a ação de Utérror, mas prontamente apontou sua besta para o vilão.

- Acabou, Mur. – Disse Eutoku para o meio-elfo. – Se você e seus companheiros não me deixarem ir, eu acabo com a garota aqui.

- Será que sua adaga é mais rápida que minha besta? – indagou Ronusrim.

- Você é patético. Esse teu virote vagabundo nem arranha minha armadura fodástica enfeitiçada. Bwahahahahaha!!

- Então experimenta isso! – Urrou Difarola, que com um movimento rápido com o calcanhar, acertou em cheio as castanhas de Eutoku. Mas Utérror nada sentiu.

- Hahahaha!! Sua idiota! Eu tenho uma coquilha mágica também! Vocês nada podem comigo!

- E como você pretende fugir? Você não sabe navegar sozinho! – bradou Mur.

- É só uma questão de eu encontrar aquela bandinha. Eles estão sob contrato ainda. Eles podem me ajudar. Hahahahahaha!!

Mur ficou mudo por uns intantes. Eutoku continuava rindo. Então, o meio-elfo começou a gracejar.

- Pfffhihihihihihi... – começou o meio-elfo, e logo em seguida começou a gargalhar. Em poucos segundos, tanto Mur quanto Eutoku estavam rindo desenfreadamente.
De repente, Mur mirou sua besta para cima. A arma talvez não fosse forte o suficiente para vencer a armadura mágica de Eutoku. Mas conseguia penetrar em uma estalactite. E foi exatamente isso que aconteceu. Logo em seguida, um grande pedaço cônico de concreção calcária encontrou a cabeça de Utérror, que mesmo com seu elmo (que lembrava uma cabeça de cachorro, com dois olhos cartunescos, o focinho insinuando-se para a frente e um par de orelhas caindo quase até os ombros nas laterais), não resistiu em caiu redondo no chão.

Rapidamente Eutoku foi amarrado. Mur o agarrou e, junto com Difarola, todos foram em direção à saída da caverna.

E agora o que acontecerá com o grupo, agora que Eutoku Utérror foi finalmente capturado? Que mistérios envolvem os itens mágicos encontrados por Sinsalabim e Cerel H’Lepis? Será que Penel Lop e Bri'o'Cu se encontrarão novamente?

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Capítulo 8: Da história de Bri'o'Cu, dos olhos brilhantes e de uma serenata

O cansaço enfim pegou nossos bravos heróis em cheio. Mur, Cerel e Difarola rapidamente montaram acampamento usando material que encontraram em alguns kits de aventureiro prevenido, e logo descansavam sob o calor de uma pequena fogueira o reencontro havia sido bastante emocionante e lhes consumira as ultimas energias.

Já Jah caminhava solenemente em direção ao norte da floresta onde ele sabia residia Pau Ladinha, e caso alguem conseguisse distinguir a face de um ent, veria a sua frente nas feições de Jah um misto de tristeza, pavor e vontade de se transformar em um cupim atroz e sair adubando a floresta. Atras dele caminhava a bandinha de cordas e sopro que discutia acaloradamente sobre qual melodia iria ser tocada - alguns sugeriam a famosa canção melosa das terras longiquas do sul extremo "Sai de casa pois cansei da galhada"enquanto outros insistiam em algo mais rock and roll com a música das ilhas tropicais do norte polar "Não me boline quando andar na garupa". E no final da fila uma pessoa tentava mesclar-se ao grupo fingindo que um dente de madeira era uma flauta.

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Enquanto isto Bri'o'Cu acordava de seu desmaio, observou ao redor e viu três de seus captores dormindo tranquilamente. Levantou-se e facilmente rompeu as cordas que o segurava. Enquanto caminhava um pouco pra sentir seu corpo observeu suas mãos e pés, até chegar a um espelho da agua onde passou a observar seu rosto. "Quantos anos teria se passado desde seu aprisionamento?" O seu corpo era igual a como ele lembrava, era se como todos aqueles séculos não tivesse passado. Os rakshasa, são homens-tigre, com um corpo humano com pelagem, garras e a cabeça de um tigre.
Bebeu um pouco de agua e voltou para junto do acampamento. Podia tranquilamente acabar com aqueles aventureiros que dormiam aos seu pés, mas não achou nenhum motivo para isto. Na realidade começou a perguntar-se se afinal não seria melhor continuar preso no oblivio já que não tinha lugar algum pra chamar de lar, tampouco uma familia pra chamar de sua. Enquanto pensava nisto as ultimas lembranças antes do antes de sua punição.

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"Ladinha meu amor eu sei que está aí. Vim até aqui para mostrar que estou arrependido." A um sinal de cabeça que quase arrancou duas arvores próximas, a bandinha começou a tocar alegremente, e todos aguardavam a recital de Jah. Porém as salavras não saiam de sua boca, gotas de seiva escorriam abundantes por sua face e seus os galhos tremiam como uma vara verde. Quando Jah pensou que estava tudo perdido escutou uma voz conhecida que lhe soprou algumas palavras e sem raciocinar Jah as repetiu quase gritando.
"Pau Ladinha, Pau Ladinha que delícia esta tua busanfinha."Ao terminar a frase a floresta ficou muda exceto por uma risada que ecoava pelas arvores vinda do amago de Sinsalabim que rolava no chão de tanto rir.
"O que significa isto Sinsalabim? Pau Ladinha é uma senhora de respeito." Falou Jah ao ouvido de Sinsalabim. "Tá ok, huhuhhu, deixa pra mim. Estou tendo umas idéias para a serenata, huhuhuh começa assim..."

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"A tua presença foi do que mais senti falta

No abrigo escuro onde me escondia..."

Rakshasa -
antiga raça que durante anos dominou completamente o Vale das Mortes Infinitas pelo medo e poder. Este vale por eras foi um local sagrado para diferentes raças: anões, elfos, trolls guerrearam por gerações pelo supremacia, até a vinda da tribo dos Rakshasa.
O Rakshasa se mostraram uma tribo feroz e cruel e apesar de seus poucos membros, derrotava seus inimigos com ferocidade e poderosos feitiços arcanos. Neste ínterim encontrava-se Bri'o'Cu, destinado a ser o novo líder do clã, após derrotar todos os jovens da tribo pelo manto de chefe. Antes de realmente assumir a liderança, passou por treinamentos insanos nas artes do combate, conjuração, subterfúgio e até escrita. Pois apesar de uma tribo bárbara os Rakshasa dão extrema importância a leitura e o conhecimento de maneira geral, mas principalmente o arcano.

"Não esqueço até hoje de teu explendor
De teu fulgor que fez sumir os males que me afligia..."

Era como uma incursão qualquer em um vila élfica, consistia de matar e pilhar o maior número de casas, e Bri'o'Cu liderava alguns guerreiros da tribo. A tarefa corria bem, os sentinelas foram devidamente derrubados com magias de sono e desorientação e logo o ataque começou. A vila era pequena e os poucos homens capazes de lutar, não ofereciam muita resistência contra a força dos rakshasa. Bri'o'Cu já exaltava urros de vitória quando surpreendeu-se com um forte barulho seguido de uma explosão, vinda de uma das casas mais distantes. Correu para aquela direção e assustou-se com a cena que viu pelo caminho, corpos de seus companheiros cortados e incinerados por um fogo azulado. A cena que viu a seguir tirou-lhe o pouco de folego que tinha.
Lutando contra 5 rakshasa sobreviventes estava apenas um elfo que segurava firme uma espada fina e bem trabalhada em uma mão e na outra um cajado este rústico em contraste com a beleza da espada. O elfo estava banhado pelo sangue dos oponentes derrotados e mesmo assim não dava mostra de cansaço Devendia os golpes de garras dos rakshasa com a espada e com o cajado se protegia das magias e lançava contra ataques com ambas as armas, com tal maestria que Bri'o'Cu perguntava-se se mesmo ele seria capaz de derrotar tão feroz oponente.
Um a um os rakshasa foram tombando, mutilados pela espada ou queimados pelas chamas azuis invocadas pelo elfo. Quando o seu ultimo guerreiro caiu Bri'o'Cu avançou. A ira pela vitória que tornara-se derrota deixava sua face ainda mais monstruosa. A sede de sangue o tornara um predador. Ele não se importava mais com a desonra de atacar um oponente já exausto. Entoando um feitiço de proteção contra as chamas ele avançou. Como previra o oponente usara sua chamas letais, mas Bri'o'Cu estava protegido e facilmente passou ileso por elas e suas garras já estavam indo em direção a jugular do inimigo quando parou de súbito.
Mesmo coberta pelo sangue e por machucados Bri'o'Cu enfim percebeu que não se tratava de um elfo, mas sim de uma elfa. A criatura mais bela que ele já vira em sua vida e o que lhe mais chamara a atenção foram os olhos, de um verde brilhante e ferozes como o mais poderoso dos felinos. A jovem arfava e aproveitou o tempo dado pela confusão de Bri'o'Cu para correr em direção a casa que estava ali próximo. Bri'o'Cu voltou a si e correu atras dela, e logo a alcançou.
"Se tens alguma honra em si como dizem, deixarás vivas as criaturas naquela casa." Suplicou a elfa enquanto apontava para a casa atrás de si.
"Então sabe quem eu sou? E quem és tu elfa? Jamais chegou aos meus ouvidos que os elfos tivessem tão poderoso campeão e muito menos que fosse uma mulher." Perguntou Bri'o'Cu enquanto tentava desviar o olhar daqueles olhos penetrantes.
"Todos conhecem o nome de Bri'o'Cu, o Assassino, o Tirano, o Honrado. Tu possuis muitos nomes, mas é conhecido por todas as raças como o Flagelo das Mortes Infinitas. E eu me chamo Penel Lop, da família Char Moza, desfensora da tribo dos Elfos Selvagens dos Pantânos Fétidos e Escuros."
Bri'o'Cu então sob o olhar severo de Penel, caminhou até a casa em questão e abriu a porta. Pelo santo do olho viu que Penel tentava se mover, mas o feitiço silêncioso imposto por ele não a permitiu se mover. Para surpresa dele a casa estava abarrotada de crianças. Mas não só elfos, mas de todas as outras raças que habitavam o vale, entre eles um pequeno rakshasa. E junto deles alguns adultos feridos também de várias raças em camas improvisadas.
"O que significa isto Penel? Sabes que as tribos vivem em guerra como ousa mantér sob o mesmo teto estas crianças como se fossem irmãos da mesma tribo?" Bradou furioso Bri'o'Cu.
"Olhe para eles Bri'o'Cu, diga-me se assim lhes parece tão necessária a vida em torno da guerra e do sangue. E se estão assim és por tua causa. A minha pequena tribo tem como missão reunir os orfãos de guerra e convalescentes abandonados e cuidar como se fossemos irmão de tribo, como falastes."
"E com qual intenção? De mais tarde os usar, suas cabeças como troféu ou mesmo como instrumento de coerção?"
A elfa chegou sorrir da mentalidade de Bri'o'Cu apesar da situação que se encontrava. "Não caro Bri'o'Cu, é porque acreditamos que somente esta atitude pode livrar-nos deste ciclo de ódio e destruição que assombra este vale."
"Somente quando uma tribo governar sobre as outras é que a paz reinará pelo vale."
"Ah... então é assim que pensas. No fundo nosso objetivo é o mesmo caro Bri'o'Cu. Então que tal uma aposta?"
"Tu não estás em condição de barganhar comigo, mulher."
"Deixe a mim e estas pessoas vivas e mostrarei-lhe que posso unir todas as tribos deste vale e te derrotarei e tornarei-lhe meu servo."
"E caso eu me torne o senhor deste vale?"
"Aí de bom grado tornar-me-ei tua esposa."
Aquela idéia era rídicula, Bri'o'Cu sabia que jamais poderia ter uma mulher que não partilha-se do seu sangue. Jamais ousaria ter uma criança com o sangue dos fracos elfos, a tribo jamais o respeitaria. Mas não conseguiu negar o fascínio que aquela mulher o causava. Tentava a todo custo não olhar diretamente para o seu rosto, mas falhava vergonhosamente. Sabendo que aquele ato era por si só insano e imprudente, pois em um futuro próximo provavelmente ela estaria morta, talvez até pela suas próprias mãos, Bri'o'Cu aproximou-se da elfa e usou o resto de sua força para entoar um feitiço de cura, que não era sua especialidade mas ainda assim surgiu resultado.
"Vá embora, leve estas pobres almas contigo e prometa-me uma coisa." Disse Bri'o'Cu ao dar as costas a elfa. "Que até me tornar o senhor deste vale tu não morrerás e passaras aquele filho dos Rakshasa todo teu poder e conhecimento."
"São duas coisas." Respondeu a Penel enquanto se dirigia a casa onde os refugiados espiavam a cena. "Mas em nome do meu sangue Char Moza e da sagaz tribo Elfos Selvagens dos Pantânos Fétidos e Escuros, eu Penel Lop juro que viverei até tu tornar-se o senhor deste vale."

"Desde que andei sob o mesmo sol que tu eu sabia
Destinado a te amar e sofrer eu viveria..."

"Estás louco" bradava um. "Quer trazer a destruição a nossa tribo" esperneava outro. "E tinhamos em ti tantas esperanças" lamentava o último dos anciões da tribo, que desde a morte do antigo líder tinham como responsabilidade treinar e auxiliar o futuro líder, que pela demonstração de suas habilidades acabou tornando Bri'o'Cu o provável sucessor.
"Além de voltar desonrosamente sozinho depois de comandar vários de nossos irmãos ao infortúnio, ainda há relatos de que encontra-se às escondidas com uma mulher que não partilha do nosso sangue." O mais velho dos anciões expunha o problema que a algum tempo vinha sendo acobertado, mas que agora tomava proporções maiores, já que muitos dos rakshasa já não confiavam em Bri'o'Cu para ser o novo líder. A estas acusações Bri'o'Cu escutava quieto pois sabia serem verdade, ele se amaldiçoava por não ser mais forte, mas seu amor por Penel crescia cada vez mais e já não se importava mais em ser o líder da tribo.
"Não gostaria de recorrer a tão extremo método, mas tu não me dás escolha Bri'o'Cu. A ti terei de impor a Ordem." Até os outros anciões tremeram ao ouvir a sentença. A Ordem era um antigo e terrível feitiço utilizado pelos Rakshasa para impor uma determinada vontade em uma criatura. Era pouco utilizado pois requiria componentes difíceis de encontrar, muito poder mágico e poderia causar sequelas irremediaveis tanto no conjurador quanto na criatura encantada. Apenas os anciões sabiam como utilizar esta magia e por isto eles também eram chamados de a Ordem.
A Ordem era clara. "Mate Penel Lop e todos os renegados com ela"
E assim saiu Bri'o'Cu a caça de sua amada, sem vontade própria a fúria de sua tribo somada ao poder mágico da Ordem o fez encontrar rapidamente a elfa e os renegados. Ao avistar Bri'o'Cu os renegados vieram lhe dar as boas vindas como sempre o faziam, mas foram sumariamente executados pelas garras afiadas do rakshasa. Sem entender os outros renegados rapidamente se colocaram em posição de combate e atacaram com todas as suas forças. Penel tentava argumentar com Bri'o'Cu, mas este não lhe dava ouvidos e somente combatia com uma máquina de matar. Em poucos minutos os renegados estavam em sua maioria mortos ou brutalmente feridos e de pé somente a elfa e um pequeno rakshasa.
"Não acredito no que fazes Bri'o'Cu. Achei que tu eras diferente. Vejo que me enganei, mas se tem algo que ainda posso fazer com meu poder é tentar cumprir a minha promessa." Enquanto dizia isto, começou a entoar um antigo cantico que Bri'o'Cu não o reconheceu apesar se conhecer o idioma élfico. Mesmo tentando desesperadamente parar de lutar seu corpo não o obedecia e partiu contra a elfa novamente.
Para surpresa de Bri'o'Cu a magia que Penel invocou não era de ataque mas uma magia que fez com que a criança rakshasa sumisse instantaneamente. Porém este ato custou-lhe caro. A garra de Bri'o'Cu atravessou o tórax da elfa, causando um grande ferimento que jorrava sangue. Naquele momento a sanidade de Bri'o'Cu voltou e com ela o desepero.
Lágrimas corriam de seu rosto enquanto clamava pelo nome de sua amada. Sem resposta. Passados alguns minutos Bri'o'Cu sabia que só havia uma coisa a fazer. Vingança. O poder da Ordem ainda corria pelo seu corpo, e ele havia visto o feitiço dos anciões o que bastou para ele fazer uma nova invocação da magia onde precisou apenas alterar a determinação.
"Destrua completamente a Ordem" Esta foi a vontade que Bri'o'Cu impos sobre si mesmo.

"A que futuro irei encontrar do teu lado
Entre as estrelas o sol ou o forcado..."

O solo da aldeia era rubro. Bri'o'Cu era impáravel. Poucos resistiam a mais de um de seus ataques. Os melhores guerreiros já tinham caído. Os magos na retaguarda esperavam pelo seu fim. E a Ordem invocava seu ultimo feitiço. Um feitiço tão antigo quanto a própria Ordem, uma magia de aprisionamento que sugava o corpo e alma do alvo e o aprisionava dentro de algum item mágico. Usaram como recipiente um anel que encontraram no baú de itens mágicos. O feitiço foi um sucesso, mas consumiu a vida dos três anciões da tribo. Enfim Bri'o'Cu fora aprisionado. O anel teria um destino estranho. Como última ordem os anciões mandaram que caso o feitiço tivesse sucesso o anel seria jogado em um rio de lava. Um rio famoso por destruir anéis mágicos. Mas não contavam que o poder e a força de vontade de Bri'o'Cu fariam o anel sobreviver até mesmo ao rio de lava. Mas assim o anel foi esquecido por gerações até cair nas mãos de Endo Well, um aventureiro da conhecida familia Well. Até cair nas mãos de Sinsalabim, por sorte ou por azar.

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"Tu falaste que era o último dos Rakshasa, mas como sabia disto?" Perguntava um fascinado Cerel H’lepis, que mesmo em seus anos de glória jamais imaginou poder encontrar um espécime da extinta tribo dos Rakshasa, que por tanto tempo ele havia estudado na Universidade. "Queria ver a cara de meus coleguinhas se ouvissem que eu Cerel H’lepis, descobri após milenios um exemplar desta raça." Pensava enquanto sorria deliberadamente.
"Pois fui eu que os destrui." Respondia Bri'o'Cu sem demonstrar expressão alguma.
Mur e Difarola não se manifestavam e apenas observavam atentamente Bri'o'Cu para atacarem no caso dele demonstrar alguma intenção violenta.
"Segundo a lenda que ouvi e vi transcrita em diferentes portas e banheiros de tavernas pelo mundo a fora, após selarem seu campeão Bri'o'Cu alguns rakshasa sobreviveram, mas foram destruídos na era da Escuridão Perene, quando todas as tribos rakshasa foram dizimadas por hordas de mortos-vivos." Ao ouvir isto Bri'o'Cu não conseguiu conter sua expressão e teve de perguntar mais detalhes sobre o episódio.
"Não tenho muitos detalhes, mas pelo que parece alguns anos depois de seu desaparecimento uma criatura das trevas dominou o vale das Mortes Infinitas, enfim fazendo jus ao nome e usando um exército de mortos vivos derrotou todas as tribos do vale. Todas sofreram fortes baixas, mas nenhuma raça foi perseguida como foram os rakshasa. Era como se os mortos tivessem algo forte contra eles."
E assim seguiu a discussão, mas Bri'o'Cu não pode deixar de sentir uma extrema inquietação após ouvir este relato.

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"E assim eu busco o seu caridoso perdão
E humildemente coloco minha cabeça ao chão...
4 cabeças de alho, 3 cebolas médias picadas, um leitão...desculpa página errada" Descupou-se Sinsalabim por ter pulado a pagina da parte de poesia para culinária. "Mas acho que já está bom."
"Será?" Murmurou Jah ainda inseguro.
"Bem ela está vindo vamos ver como tu se saiu."
A ent vinha com um caminhar firme e saiu do meio das arvores, assustando Sinsalabim. Ele pensou "agora fudeu", mas Jah sussurou contente. "Os olhos dela estão brilhando, conseguimos Sinsalabim."

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Em uma caverna, no meio de um pantano fétido e escuro, uma mão saiu do chão seguida de outra e logo o corpo todo saia daquele buraco. O corpo se movimentava como se acordasse de um sono profundo. A criatura procurou ao redor da caverna e logo encontrou em um canto um monte de objetos mágicos que fariam qualquer aventureiro vender a alma por eles. Sem dar muita atenção a eles, pegou um espelho cuja moldura era de ouro com esmeraldas. Observou seu rosto e percebeu que pouco mudara de quando ainda vivia. A pele estava mais pálida e o cabelo que costumava ser de uma cor dourada brilhante, era agora uma amarelo palha. Mas algo ainda brilhava. Mais que o verde das esmeraldas.
"Até que enfim minha espera acabou."

Uaaaaaaalllláááááá. Finalmente um background nesta história. Mas o que o destino reserva para Bri'o'Cu? Que fim levou Eutóku? Sobreviverá a bandinha de cordas e sopro aos amargores que aguardam nossos aventureiros? Terão os outros personagens suas histórias revelada futuramente? Aguardem